Dizer aquilo que sentimos parece simples. Na prática, pode tornar-se uma das partes mais difíceis de uma relação.
Quando uma emoção é intensa, é fácil transformar uma tentativa de comunicação numa acusação. Em vez de explicarmos aquilo que está a acontecer dentro de nós, começamos a descrever aquilo que acreditamos estar errado na outra pessoa.
É nesse pequeno desvio que muitas conversas deixam de ser tentativas de compreensão e começam a transformar-se em conflitos.
Comunicar o que sentimos é diferente de atribuir culpa.
Há uma diferença importante entre falar sobre a nossa experiência e apresentar uma interpretação sobre as intenções da outra pessoa.
Por exemplo, dizer “sinto que nunca te importas comigo” parece uma descrição de um sentimento, mas contém também uma conclusão sobre o comportamento e as intenções do outro.
Uma comunicação mais clara procura separar essas duas coisas.
Falar sobre aquilo que sentimos cria espaço para compreensão. Definir aquilo que o outro é cria espaço para defesa.
Podemos começar por observar aquilo que aconteceu, reconhecer a emoção que surgiu e tentar perceber qual necessidade está por trás dessa emoção.
Porque é tão fácil uma conversa transformar-se num conflito?
Quando nos sentimos magoados, ignorados ou frustrados, o nosso primeiro impulso pode ser proteger-nos.
Essa proteção pode surgir através de críticas, generalizações ou frases como “tu nunca”, “tu sempre” ou “o problema é que tu”.
O problema é que estas expressões tendem a produzir exatamente a reação que queremos evitar: defesa.
A defesa muda o objetivo da conversa.
Quando alguém sente que está a ser atacado, deixa facilmente de tentar compreender aquilo que estamos a comunicar.
A atenção passa para outra tarefa: justificar-se, explicar-se ou demonstrar que a acusação é injusta.
De repente, duas pessoas que talvez quisessem sentir-se mais próximas estão ocupadas a provar quem tem razão.
O que muda quando falamos a partir da nossa experiência?
Falar a partir da nossa experiência não significa esconder aquilo que pensamos nem tornar todas as frases suaves.
Significa assumir responsabilidade pela forma como apresentamos aquilo que está a acontecer dentro de nós.
Em vez de:
“Tu nunca me ouves.”
podemos tentar comunicar algo mais próximo de:
“Quando estou a falar e mudamos rapidamente de assunto, sinto que aquilo que estou a tentar explicar não chegou até ti.”
A segunda frase não garante que a conversa seja fácil. Mas oferece muito mais informação sobre aquilo que realmente está a acontecer.
E informação clara aumenta a possibilidade de compreensão.
Uma pequena prática para comunicar com mais clareza.
Não precisamos de memorizar fórmulas ou transformar todas as conversas numa técnica de comunicação.
Podemos começar simplesmente por criar alguns segundos de espaço antes de falar.
Antes de dizer o que sentes
Numa próxima conversa importante, experimenta passar por estas quatro perguntas.
O que aconteceu concretamente, sem acrescentar ainda uma interpretação?
Que emoção estou realmente a sentir neste momento?
O que é importante para mim nesta situação?
Como posso comunicar isso sem transformar a outra pessoa no problema?
Parece uma pequena mudança. E é precisamente por isso que pode ser útil.
Relações raramente mudam apenas através de grandes conversas. Muitas vezes mudam através de pequenas escolhas repetidas na forma como falamos e ouvimos.
Clareza e respeito podem existir na mesma conversa.
Comunicar com consciência não significa evitar assuntos difíceis. Significa criar melhores condições para que esses assuntos possam ser realmente compreendidos. Quando conseguimos explicar a nossa experiência sem transformar imediatamente o outro num adversário, aumentamos a possibilidade de diálogo — e de ligação.